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Dani fez um comentário no vídeo dela para o
Mamatraca que me fez pensar. Ela lembra de um hábito que se perdeu nos aniversários infantis: abrir os presentes na hora.
E é verdade: o convidado chegava, a gente dava aquela espiada marota na mão dele para conferir se estava mesmo levando o presente e tentar adivinhar se era roupa ou brinquedo, abria o presente rasgando o papel para dar sorte e ganhar outros mais,
agradecia na hora, jogava o papel embaixo da cama para dar sorte e ganhar outros mais (dupla proteção), colocava o presente em cima da cama e voltava para a festa. No meu caso, se o presente fosse ou tão irresistível que não daria para esperar ou tão banal que eu não me importava de dividir com os outros, eu já saía brincando com ele.
Me lembro bem das primeiras vezes em que fui em aniversários em buffet infantil (eu já era grandinha e lembro bem de quando estes buffets surgiram, pelo menos no meio em que circulava - pode ser que eles já existissem para as crianças mais abastadas, uma vez que era algo beeeem caro). Eu deveria ter uns 10, 12 anos e lembro de que todo mundo achava a coisa mais esquisita do mundo a gente entregar o presente para uma pessoa X, e não para o aniversariante. E depois nunca mais ficar sabendo se o presente chegou mesmo ao destinatário, se ele gostou e etc.
Como o habitual na minha vida eram as festas em casa, que foram mudando de cara e ficando cada vez menores conforme fui crescendo, toquei o barco abrindo os presentes na hora e nunca mais pensei no assunto. E como tudo o que era novidade e depois vai sendo incorporado aos nossos hábitos, me acostumei a nunca esquecer de colocar o nome do presente e a entregá-lo para algum desconhecido na entrada do buffet - ou então de colocar o presente em uma caixa na porta da festinha. E deixei de achar esquisito não ouvir nunca mais falar no presente depois dele entregue.
Tudo isso até a minha filha completar um ano de vida. Bem boiada-style, sem refletir nada sobre o assunto, fui lá e coloquei uma caixa no salão de festas, para colocar os presentes. Levei até uma caneta para escrever o nome do presenteador, caso ele esquecesse. Já tinha ajudado a minha cunhada na festa da minha sobrinha, e imitei o que ela fez.
Quando o primeiro convidado chegou, abrimos o presente na hora. A Helena ficou brincando com ele e talz. Mas as pessoas foram chegando, chegando... e pronto. Todo mundo deixou os presentes lá, na tal caixa.
Ao final da festa, tínhamos uma montanha de presentes - todos eles identificados, pelo menos. Como a pequena estava bem cansada, fomos dormir e deixamos eles lá. No dia seguinte, eu, meu marido e a baixinha fomos abrir os presentes.
E sabe que foi algo estranho? Porque bate uma certa ansiedade para abrir tudo, ver tudo. Não se curte cada presente ganho. Se quer saber logo o que vem depois. É a substituição da olhadinha marota na mão do convidado pela olhada ansiosa em direção ao próximo pacote. O que torna tudo muito impessoal e mecânico.
Posso estar viajando. Mas me parece que este hábito é meio que um reflexo - ou um sintoma? - dessa nossa sociedade cada vez mais consumista e preocupada com o ter, o aparentar.O que importa é ter uma pilha de presentes, independente de quem os deu, quem os escolheu. É preciso abrir mais um e mais um e mais um. Cadê o abraço depois de ver que aquela tia querida te deu a boneca que você tanto desejava? Acabou.
O que decidi agora, depois de pensar nisso tudo? Acabou essa história aqui em casa. A partir de agora, presente se abre na hora, na frente de quem o deu. E se agradece na hora, também. Nada mais de email e cartão no dia seguinte (fiz assim na primeira festa, porque a pessoa comprar o presente com o maior carinho e nem ficar sabendo se a gente viu é um pouco demais para mim). Eu acho que a criança precisa associar diretamente aquele presente a quem o deu. E que o que importa é o gesto de carinho, e não mais um objeto perdido no meio daquela montanha de objetos.
Valeu, Dani, pela reflexão.
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Ainda no tema, também tenho visto uma coisa que me parece que (ou é o meu microcosmo que tá muito louco?) está caminhando a passos largos para se tornar algo muito comum: juntar os aniversários de dois irmãos em uma única festa.
Ainda que um dos irmãos tenha nascido em agosto e o outro, em outubro. Ou, pior ainda, ainda que uma das irmãs tenha nascido em
setembro e a outra em março (!!!).
Conversando com as mães, sempre o mesmo motivo: porque assim dá para fazer uma BIG festa para os dois, ao invés de cada um ter uma festa mais simples. Poupa dinheiro e poupa trabalho na organização do mega evento.
Espera um pouco... a criança (e estamos falando de menores de cinco anos) PRECISA mesmo ter uma BIG festa no buffet mais badalado da cidade? Ou uma super produção montada pelo decorador da moda, fotografada pelo fotógrafo da moda, animada pelo animador da moda? Os cupcakes da grife tal, docinhos em formato de girafa, mesa disso e daquilo, lembrancinhas mais caras que os presentes?
Ou a criança quer, apenas, se sentir especial e celebrada naquele dia? No dia do SEU aniversário?
Porque vamos combinar que fazer uma festa depois de um, dois
meses do dia correto do aniversário é perder totalmente o objeto da comemoração? Ainda mais no caso de crianças tão pequenas, para quem a noção de tempo é tão diferente da nossa.
Eu adoro uma festa de aniversário e faço questão de comemorar sempre. E nunca nem me passou pela cabeça - e eu detestaria - fazer uma festa em junho, sendo que nasci em abril. Porque faria isso para meus filhos (e, ainda, privando cada um deles de ter uma festa própria)?
Eu entendo completamente a festa única quando os aniversários são bem próximos. Uma amiga tem uma filha nascida em 27.11 e um menino do dia 10.12. São duas semanas de diferença, e uma festinha bem no meio do caminho é super ok. Agora... uma festa (ainda que uma super festa) depois de dois meses?
Ah, as mães argumentam, mas uma super festa - seja em buffet, seja uma superprodução em casa - é algo muito caro, que demanda muito trabalho (são muitos fornecedores envolvidos), não dá para fazer duas no mesmo ano. Eu penso que festa é algo que deve caber no nosso bolso. Se exige malabarismo financeiro para acontecer, minha amiga... tem algo de muito errado no reino da Dinamarca. Faça uma festa simples, em casa, para os cinco melhores amiguinhos, os avós e as tias. Sirva cachorro-quente (tem comida de festa mais barata?), bolo e brigadeiro. O aniversariante vai amar, eu prometo. Muito mais que uma super produção dividida com o irmão depois de quatro meses do aniversário de verdade.
No fim das contas, a gente acaba entendendo para quem é a super festa, não é mesmo? Porque tenho certeza que essas crianças adorariam comemorar o dia delas (como eu me lembro da alegria que ficava no dia da festa do meu aniversário, contando os minutos desde cedo e acompanhando toda a movimentação da casa. Quando o aniversário de verdade caía no dia da festa, então, era a glória. Eu era a mais especial de todas as crianças da face da terra) no dia delas. Mas de uma festinha cachorro-quente-bolo-brigadeiro, os pais não podem ficar se gabando na porta da escola... ou podem?